
O modelo científico tradicionalmente adotado para validação de evidências apresenta limitações importantes quando aplicado à fisioterapia. Um dos principais entraves está na dificuldade de realizar estudos do tipo duplo-cego, já que, na maioria das intervenções fisioterapêuticas, é praticamente impossível estabelecer um pareamento adequado entre intervenção real e placebo.
Ao tentar transpor para a fisioterapia os modelos clássicos de evidência médica — especialmente aqueles baseados em estudos com medicamentos — nos deparamos com inúmeros vieses. Diferentemente do modelo farmacológico, em que a intervenção costuma estar diretamente associada ao sintoma ou à causa bem definida (como infecção e febre, inflamação e dor), na fisioterapia a relação entre causa e sintoma nem sempre é linear ou evidente.
A dor ciática, por exemplo, nem sempre é consequência de uma hérnia discal. O torcicolo nem sempre decorre apenas de “dormir mal”. A dor no ombro nem sempre se explica exclusivamente pelo excesso de movimento. Disfunções mecânicas podem ter origem em alterações fisiológicas viscerais, traumas diretos ou indiretos, padrões inadequados de uso, entre outros fatores. Essa complexidade torna a padronização dos estudos particularmente desafiadora.
Além disso, muitos artigos apresentam desenhos metodológicos frágeis, vieses relevantes e conclusões precipitadas, afirmando que determinada terapia “funciona” ou “não funciona” com base em análises estatísticas questionáveis. Estudos observacionais, embora menos valorizados na hierarquia tradicional das evidências, frequentemente trazem contribuições clínicas relevantes, mas acabam sendo desconsiderados por pesquisadores excessivamente apegados a modelos rígidos de validação.
Surge, então, um segundo problema: a distância entre parte da produção acadêmica e a prática clínica. Há pesquisadores que, para evitar questionamentos, permanecem restritos à área que dominam, mostrando resistência a novas abordagens, hipóteses ou talentos emergentes.
É urgente que a academia amplie o diálogo com a prática clínica. Precisamos de modelos de pesquisa que considerem a avaliação funcional do paciente, a individualidade biológica e a complexidade das disfunções, em vez de se limitarem ao tratamento isolado de sintomas por meio de uma única técnica.
A fisioterapia demanda um olhar integrativo, crítico e aberto à inovação — sem abrir mão do rigor científico, mas também sem ignorar a realidade clínica.